sábado, 27 de outubro de 2012

Depoimento para Revista Marie Claire

"Fui a India e me curei de uma doença grave"

A ex-arquiteta Laura Pires perdeu a visão periférica, não conseguia mais andar e chegou a pesar 37 quilos. Diagnóstico: esclerose múltipla. Depois de enfrentar uma saga de médicos e exames e ter uma reação alérgica aos corticoides, foi para a Índia. Experimentou a medicina ayurvédica. Encarou de frente seus apegos e egoísmo, aprendeu a rezar e a meditar. Na primeira internação de 21 dias, recuperou a visão. Em um ano e meio, estava bem. Mas nunca mais se descuidou

Por Depoimento a Deborah de Paula Souza
"Em plena crise conjugal, os sintomas começaram"
“Em junho de 2005, desmaiei dentro de uma livraria num shopping. Fui socorrida no ambulatório e me disseram que era uma hipoglicemia. Não levei a sério, devia ser estresse. Eu tinha uma vida louca, morava no Rio com o Marcos, meu marido na época, e trabalhava como arquiteta em São Paulo. Vivia na ponte aérea. Em janeiro de 2006, bati o carro. Destruí a lataria, mas ninguém se machucou. Dez dias depois, diante da tela do computador, meu olho esquerdo embaçou. Perdi a visão periférica, essa que nos faz ver as coisas nas laterais sem virar a cabeça. Mesmo assim, passei um colírio e segui trabalhando. Marquei um ­oftalmologista, ele achou que era glaucoma, depois descolamento de retina. Uma outra especialista descartou essa hipótese e diagnosticou uma inflamação no nervo ótico. Receitou corticoide. Tomei um comprimido e a reação foi assustadora. Fiquei vermelha, toda inchada e com calor intenso no corpo. Liguei para a médica e pedi que mudasse o remédio. Ela afirmou que não havia outra medicação. Mas eu não podia tomar aquilo!
Saga aos consultórios De oftalmologistas passei aos neurologistas. Em um mês, perdi a visão periférica do outro olho e comecei a ter dificuldades para andar. Me sentia fraca e sofria com cãibras e tremores. Fazia testes de reflexos e as respostas variavam muito, tinha dia que eu estava melhor, noutros piorava. Entrava nos tubos para fazer ressonância, não aparecia nada. Investiguei durante quatro meses, até que uma espécie de mancha no nervo ótico apareceu em um dos exames. Era um indício de esclerose múltipla, doença inflamatória que ataca o sistema nervoso central e sobre a qual a medicina ainda sabe pouco. Eu teria de fazer sessões para aplicar corticoide na veia, do contrário, iria piorar rapidamente. Fiquei apavorada. ‘Como assim? O que eu tenho?’ Ninguém me explicava, só insistiam nos corticoides, mas se eu tinha sofrido uma reação alérgica tão forte a um comprimido de 20 miligramas, como poderia tomar mil miligramas por dia?
O primeiro contato Enquanto isso, o Marcos começou a pesquisar na internet e mandar ­e-mails para o mundo todo, inclusive para a Índia, roteiro das nossas férias no ano anterior. Eu, até os 19 anos, não sabia nem localizar o país no mapa. Era vegetariana e já havia praticado ioga, mas não me interessava pelo lado ­filosófico. Marcos adorava a Índia e me ensinava coisas sobre a cultura do país. Nessa primeira viagem a passeio, ele teve um problema nos olhos e precisou consultar um médico. Assim conheci­ a ayurveda, a tradicional medicina indiana que tem dietas, massagens e medicamentos à base de ervas entre seus tratamentos.
Um ano depois desse episódio, desesperado à procura de um tratamento para mim, Marcos escreveu para o médico que o atendeu, que respondeu: ‘Traga sua mulher aqui, nós podemos ajudá-la’. Ficamos com essa carta na manga por um bom tempo. Mas eu piorava a cada dia. Parei de trabalhar, enxergava tudo borrado, emagreci demais, cheguei a pesar 37 quilos — sou baixinha, mas meu peso normal é 45 quilos — não conseguia mais ficar em pé. Às vezes, não tinha força para comer e Marcos me dava comida na boca. Sempre fui racional, mas no desespero tentei de tudo: dieta à base de alimentos crus, acupuntura, igreja, centro espírita... Se alguém falava de um novo especialista, eu ia. O que mais me assustava era a possibilidade de ficar dependente dos outros. Odiava o rótulo de ‘doença incurável’ e não queria me identificar com ele. Esse era o ponto: Quem era eu, no que acreditava, para onde queria ir? Tinha 25 anos e até então vivia como Peter Pan, a eterna criança, achando que nunca iria envelhecer e que teria a minha saúde maravilhosa para sempre, mas não sabia preservá-la. Não comia direito, fazia mil coisas ao mesmo tempo.
Menos controle Quando os sintomas começaram, em 2005, eu estava em plena crise no casamento, quase me separando. Pedi ao Marcos que ficasse comigo e ele me respondeu que jamais me abandonaria naquele momento. Com certeza, a minha vulnerabilidade emocional tinha a ver com meu desequilíbrio. Sempre quis ter o controle de tudo e, de repente, nem os meus músculos me obedeciam. A minha recusa aos corticoides provocou conflitos. Sou gaúcha de Pelotas, de uma família tradicional cheia de médicos e advogados, eles me acharam maluca. Minha mãe veio para o Rio cuidar de mim e, em um momento, ela e meu pai quiseram me levar de volta para a casa deles. Sabia que estavam preocupados, mas tivemos muitas brigas. Para minha surpresa, além do Marcos e da minha grande amiga Neza César, meu aliado foi o meu avô materno, de 81 anos, muito religioso, que me compreendeu.
Decisão difícil Em alguns períodos, sentia alívio por causa dos tratamentos alternativos, mas os sintomas voltavam. Até que uma médica foi categórica: ‘Chega de adiar, Laura. Você deve ir agora ao hospital fazer a pulsoterapia’. Eram as tais doses gigantes de remédios. Quando saí do consultório, disse para o Marcos: ‘Vamos para a Índia’. Ele sabia que aquela decisão era difícil, pois toda minha família era contra. Mas me apoiou completamente. Embarcamos em maio de 2006. A viagem durou 24 horas e foi terrível. Não sentia mais o meu corpo, estava cheia de tremores, dormências e cãibras até na cabeça. Marcos­ se internou comigo na clínica onde eu faria o meu primeiro tratamento ayurvédico intensivo, de 21 dias. Ninguém daqui pode imaginar o que é uma clínica indiana: um chão imundo, ninguém varre, lagartixas e baratas passeando pelo quarto. E com as pessoas­ mais amorosas do mundo. Fui atendida por aquele médico que havia cuidado do meu marido e perguntei: ‘Quando o tratamento começa?’. Ele sorriu e disse: ‘Já começou’. A primeira receita era a seguinte: eu devia rezar todos os dias. Rezar? Eu nunca tinha rezado, não acreditava em nada. Passei a fazê-lo, mas não era para Deus. Dedicava as preces ao médico. Simplesmente me entreguei. As condições locais eram inimagináveis. Não tinha chuveiro, só uma torneira de água quente ao lado do vaso sanitário, eu tomava banho de balde, o banheiro cheio de sapos. Por outro lado, todos os aparelhos que eram usados no meu tratamento eram esterilizados, as macas eram higienizadas. Todos os remédios eram à base de ervas, composições de plantas diversas. Meus olhos ficavam mergulhados numa piscina de manteiga — eles colocaram um círculo de pão em volta deles e encheram de ghee, manteiga clarificada e medicada. O tratamento desintoxicante incluia dieta, massagens e os pancha karma, limpezas intestinais, com óleos e chás de ervas injetados pelo ânus.
 
Dor da alma Depois das lavagens, que eram bem invasivas, eu chorava. Meu choro vinha da alma. Não era só dor física, eu sentia uma dor emocional, como se estivesse purgando todas as minhas amarras, medos da infância, tudo. Revivi os meus relacionamentos familiares e o que estava embaixo do tapete apareceu. Lembrava muito da minha avó materna, que morreu de câncer quando eu tinha 19 anos. Éramos grudadas. Hoje, sei o quanto tristezas como esta afetam o equilíbrio do organismo. Ficamos doentes não só por causa do modo como vivemos ou comemos, mas também pelas emoções. Achava que meu marido não me amava porque a gente estava se separando, mas quem não sabia amar era eu. Confundia amor com apego. O cuidado do Marcos comigo foi um ato de amor total. Independentemente de nossas crises, ele estava ali comigo e depois continuou provendo a casa e cuidando de mim durante três anos. Naquela época, eu não seria capaz de fazer aquilo por ninguém. Tive de olhar o meu egoísmo de frente. Voltei da primeira viagem muito melhor e recuperada da visão. Depois de um ano e meio e outra temporada de tratamento na Índia, agora num hospital maior mas igualmente sujo, e sob os cuidados carinhosos do Dr. Mohanan, que cuida de mim até hoje, os sintomas sumiram de vez. Não tomei nenhum remédio alopático, corticoide ou medicação para dor. Nenhum médico indiano me prometeu curas nem garantiu que elas seriam definitivas. No total, fui quatro vezes à Índia para me tratar e pretendo voltar todo ano. E sei que é fundamental fazer a manutenção, sempre de acordo com o seu dosha, uma espécie de biotipo. A ayurveda trabalha com três doshas. O meu dosha predominante é Vatta, típico das pessoas falantes, criativas, instáveis, que adoram viajar, perdem peso rápido e não gostam de rotinas.
Rotina saudável Para equilibrar essa tendência, é importante manter a disciplina. Hoje, acordo 5h30 ou 6h da manhã. Aplico óleo de gergelim no corpo, tomo um banho, um chá e faço uma prática de ayengar ioga. Medito diariamente e sou bem rigorosa com a minha alimentação. Aprendi a cozinhar — antes, não sabia nem preparar um ovo! — e me apaixonei. A base da minha alimentação é fresca e orgânica. Eu era vegetariana e passei a comer peixe uma vez por mês por ordem médica. Sei fazer bolos integrais deliciosos, mas cortei açúcar branco, chocolate e café. Isso não afetou a minha vida social. Já levei sanduíche e frutas frescas em festas. Na rua, sempre tenho o meu kit de castanhas e chá de saquinho. Só não me convide para baladas porque eu durmo cedo. Mesmo com visão, peso e músculos em ordem, nunca mais voltei ao ritmo alucinado de antes.
Sem radicalismos Trabalho de três a quatro vezes por semana, e só. Se precisar trabalhar mais numa semana, na outra tiro uns dias de folga, desligo o telefone e ninguém me acha. Sei quando é hora de me recolher. Não quero convencer ninguém que a ayurveda é a melhor opção para tratar esclerose, câncer ou dor de barriga. Essa medicina não cura tudo. A alopática também não, e não sou contra ela. Tive dengue e tomei soro, peguei uma bactéria na Índia e tomei antibiótico. Quando me separei, em 2010, tive medo de adoecer de novo, porque foi uma escolha do Marcos, não minha. Mas fiquei bem, mudei de casa e passei a me sustentar sozinha. Há dois anos, sou terapeuta profissional. Tenho meus pacientes, um blog de saúde e bem-estar (buscadaessencia.blogspot.com.br), e planos de editar dois livros, o meu, sobre alimentação ayurvédica, e o do Marcos, que escreveu toda essa história, com a visão dele. 

2 comentários:

Mariana disse...

Que legal a sua viagem e que finalmente pudo achar a cura da sua doença.
Eu primeiro vou para um centro de oftalmologia em curitiba e se não consigo me curar, vou tentar viajar a algum lugar.

EDUARDO disse...

eu tenho uma doença neurológica chamada de Machado-Joseph ou ataxia espinocerebelar tipo 3. Precisei me tornar adulto para desenvolver os sintomas. Hoje em dia, meu desequilibrio chegou a tal ponto que para ficar pelo menos sentado, eu uso uma cadeira de rodas. A minha pergunta é: seus médicos indianos já ouviam fala na minha condição? Eles podem me ajudar?